top of page

Palestra discute pertencimento, tempo e ruptura de estereótipos na abordagem escolar sobre povos indígenas

  • Foto do escritor: Amanda Costa
    Amanda Costa
  • 26 de nov. de 2025
  • 3 min de leitura
ree

Incluir saberes e culturas indígenas no currículo escolar é mais do que uma atualização de conteúdo: é uma forma de reconhecer a diversidade e promover uma educação verdadeiramente inclusiva. Foi com essa perspectiva que Daniel Munduruku, escritor, professor e ativista do povo Munduruku, conduziu a palestra apresentada no Seminário Crescendo Juntos. Referência nacional na valorização das culturas indígenas, ele propôs uma revisão crítica das práticas pedagógicas e dos modos como a escola brasileira ainda representa os povos originários.


A discussão ganhou profundidade ao lembrar que faz apenas 37 anos que os indígenas passaram a ser reconhecidos oficialmente como parte do povo brasileiro, com a Constituição de 1988. Essa conquista recente ajuda a explicar por que tantos estereótipos ainda estruturam o ensino, especialmente quando a temática indígena aparece de maneira superficial ou marcada por visões homogêneas.


Munduruku iniciou sua fala destacando as diferenças entre as concepções de mundo de povos indígenas e não indígenas, especialmente na ideia de tempo, pertencimento e relação com a natureza. Enquanto o pensamento ocidental funciona a partir de urgências, metas e competição, os povos indígenas seguem outro tipo de relógio: o da natureza. Não como metáfora, mas como modo de vida sistêmico, em que tudo existe em relação e troca: “Na natureza nada é educado para ser egoísta e os povos originários aprenderam a interpretar esse movimento, criando formas de existência coerentes com ele”, pontuou.


Essa lógica também se reflete no entendimento do tempo. Para muitos povos indígenas, só existem dois tempos: o passado, como memória que orienta quem somos e de onde viemos, e o presente, que é o único tempo passível de ser vivido. O futuro, explicou Munduruku, é sempre a busca por um tempo que ainda não existe. A educação ocidental, no entanto, projeta a infância para um amanhã distante, seja na pergunta “o que você quer ser quando crescer?”, seja nas expectativas de desempenho escolar. Entre povos indígenas, a infância é sobretudo um tempo de ser, e cabe aos adultos garantir que as crianças possam viver plenamente esse presente.


ree

Outro eixo central da palestra foi o pertencimento. Em vez da lógica de posse típica do pensamento ocidental, os povos indígenas se reconhecem como parte de um coletivo do território e da natureza. Essa noção comunitária explica boa parte da resiliência histórica dos povos originários: suas lutas não são individuais, mas sempre coletivas. O próprio nome Munduruku, lembrou o palestrante, significa “formigas guerreiras”, evocando a força de quem age de forma organizada e em grupo.


Munduruku também criticou a forma como a escola brasileira ainda reproduz estereótipos ao ensinar sobre os povos indígenas. O uso indiscriminado da palavra “índio”, além de incorreto, carrega uma história de negação e apagamento. O problema, afirmou, está na própria metodologia que estruturou o ensino da história no país, construída sobre narrativas que mantiveram os povos originários à margem e nunca apresentaram seu ponto de vista.


Romper essas distorções é, para ele, condição essencial para uma educação crítica. Questionar narrativas, revisar materiais didáticos e reconhecer que a história indígena está no DNA do povo brasileiro são passos fundamentais. Essa revisão abre espaço para o que Munduruku chama de pedagogia do pertencimento: uma proposta capaz de despertar nas crianças orgulho de sua brasilidade e consciência da diversidade que define o país.


Autor de mais de 65 livros, doutor em Educação pela USP e pós-doutor em Linguística pela UFSCar, Munduruku reforçou que levar os saberes ancestrais para o currículo não é só uma inclusão de conteúdo, mas um reposicionamento ético e cultural do papel da escola.

 

 
 
 

Comentários


bottom of page